VELHICE: SÍMBOLO DE RESPEITO E
TRADIÇÃO NO ORIENTE... E AQUI ?
Em nosso caminho evolutivo encontramos diferentes etapas de desenvolvimento, segundo a Lei Natural do Dharma : infância, juventude, maturidade e velhice. Diz esta lei que na infância, fase da existência social que os hindus chamam de brahmacharya , a ação correta é o estudo e aprendizado da vida, é a observação e assimilação dos conselhos dados de boca a ouvido pela sabedoria dos mais velhos em total obediência, fidelidade e reverência. Na fase seguinte, a juventude, chamada de grhatha pelos hindus, o dharma nos diz que devemos realizar nossas atividades sócio-econômicas, ou seja, nos estabelecermos na vida material: procurar um trabalho, construir moradia, constituir família mantendo a prudência, discrição e caridade. Alcançando a maturidade, fase chamada de vanaprastha , o dharma nos indica uma atividade sócio-econômica intercalada por momentos de meditação e recolhimento, sedimentando nossas experiências que vão nos dar autoridade suficiente para demonstrarmos segurança, força, liderança, auto-controle e generosidade aos familiares. É hora de transmitirmos essas qualidades àqueles pelos quais nos tornamos responsáveis: os filhos que estão em fase de formação do caráter e/ou os pais que, já idosos, renunciaram às atividades materiais. A última fase é a velhice. A fase dos sannyasis , conforme a tradição hindu. Nesta fase nossa atividade deve ser, segundo o dharma , puramente espiritual, pois já formamos o nosso caráter, passamos pelas experiências da vida geradas pelas atividades sócio-econômicas, sedimentamos tudo isso, enfim, movimentamos o mundo. É hora, portanto, de usufruirmos desta ação passada e nos dedicarmos apenas ao espírito, de nos purificarmos, de colocarmos em prática a paciência, o equilíbrio e a entrega aos propósitos divinos. Cabe aos familiares, ao governo e à sociedade dar o amparo necessário ao idoso para que tenha tranqüilidade no término de sua existência física.
Na Índia, onde na maioria das vezes a condição sócio-econômica não favorece, os idosos costumam se retirarem nos ashrams e lá recebem assistência médica, alimentar e moradia digna podendo fazer ou não, em troca, serviços espirituais ( seva ) à comunidade do ashram , conforme a sua capacidade de atuação. É costume entre os chineses, japoneses e todos os povos do Extremo Oriente dar assistência integral aos seus familiares idosos, respeitando-os e reverenciando-os com gratidão e amor, para se manter a prosperidade e os bons presságios na família.
Esta é a tradição do Oriente, ditada pelos sábios anciãos, os Rishis , há milhares de anos atrás, numa época onde sathya (verdade), dharma (ordem) e prema (amor) estavam em “alta” na “galeria da vida humana”. Esta tradição se mantém até os dias de hoje. Mas, como? Que mágica foi esta em que ensinamentos espirituais, estranhamente, foram mantidos séculos após séculos até os nossos dias tão recheados por computadores, energias atômicas, microbiologia e a suntuosidade das tecnologias de última geração, frias e desumanas, das guerras em nome da “paz”? Como? É muito simples. Graças ao respeito e gratidão que eles têm pelos seus pais, avós, bisavós e todos os seus ancestrais, que lhes deram a oportunidade de nascer e, desta forma, dar continuidade a sua evolução espiritual, condição impar proporcionada pela existência terrena.
Nas culturas orientais, apesar da invasão ocidental, parece que a espiritualidade não se contaminou e por causa disso a tradição se manteve. O mesmo já não se pode falar das culturas ocidentais. Pois o vírus chamado “Império Romano” molestou de tal forma a espiritualidade que lhe deixou uma seqüela dita como “Idade Média”. E numa tentativa alucinada e angustiante de recuperá-la sofreu uma intervenção cirúrgica denominada “Renascimento”. Mas pobre espiritualidade, o ambiente cirúrgico estava altamente infectado por indulgências pagas pela hipocrisia humana (um vírus do tipo Pseudomônias) e contraiu a infecção que gerou um abdômen agudo classificado como “Revolução Industrial dos Tempos Modernos”. Agonizando em seu leito de morte, espiritualidade foi socorrida por uma legião de anjos entre os quais se destacavam Alan Kardec, Madame Blavatsky, Annie Besant, Alice Bailey e muitos outros, recuperando-se agora gradativamente.
Duro karma da espiritualidade no Ocidente, que perdeu a tradição e o respeito. Ou melhor, duro karma da “civilização” ocidental que negligenciou por tanto tempo as questões espirituais. Mas, felizmente acordamos. Tarde? Não. Tarde é um tempo que não existe. O problema é que perdemos a tradição e sem ela foi-se também a memória. As pessoas, fatos e coisas passaram a ser descartáveis. Incorporou-se o conceito de que tudo que é antigo está ultrapassado, não serve mais. É como se diz por aí: é “careta”, “cafona”, “antiquado”. E esta é a realidade de nossos idosos; sinônimo de transtorno, constrangimento, abandono, enfim, sofrimento.
Pois bem, no Oriente o idoso é visto por suas famílias como símbolo de tradição, gratidão, respeito e amor. E aqui?
Será que hoje já demos atenção ou fizemos algum agrado a alguém que vive esta última e derradeira fase da existência terrena?
Lembre-se: espiritualmente o idoso é a base, é o fundamento desta grande pirâmide humana chamada sociedade. Se o abandonarmos e não o tratarmos com respeito, dignidade e carinho, sofreremos um sério risco de desestruturação desta sociedade. É a Lei Natural do Karma agindo inevitavelmente.
OM SHANTI PREMA OM
NARADA
Dr. Roberto Nogueira
Fisioterapeuta, Terapeuta dos Campos Sutis e Prof. de Yoga
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