A RETA CONDUTA

OS PRINCÍPIOS ÉTICOS DO COMPORTAMENTO

NO SISTEMA FILOSÓFICO DO YOGA

(2ª PARTE)

São cinco virtudes que a Alma Iniciada deve desenvolver. Essas virtudes são práticas ativas que complementam os princípios de autocontrole.

Enquanto os princípios de autocontrole são de forma negativa, como um refreamento, e versam principalmente sobre a harmonização das relações sociais e com o mundo dos seres vivos em geral, essas cinco virtudes são de forma positiva e construtiva, como um incentivo, e visam à organização da vida interior e pessoal. Impor limites ao comportamento exterior não é suficiente e é preciso reestruturar a personalidade profundamente por meio das virtudes, que devem ser praticadas regularmente, dia após dia. São elas:

  • Shaucha que significa “pureza”. Deve ser cultivada desde o nível mais grosseiro, que se refere ao corpo físico, até um nível mais sutil, que se refere ao corpo mental. A pureza física está relacionada com a higiene corporal, com uma dieta adequada ao seu tipo de organismo, de preferência vegetariana. Quanto ao nível mais sutil, deve-se cultivar a pureza de emoções, sentimentos e pensamentos.

Aquele que deseja ter uma reta conduta não deve apenas restringir-se à limpeza corporal externa, mas proceder à purificação interna de seus órgãos pela regulação correta de seu modo de vida. Assim como a força, a clareza e a sutileza do pensamento dependem em grande parte da qualidade do corpo, a Alma Iniciada precisa de um harmonioso e puro instrumento corpóreo que seja, simultaneamente, sensível e forte. A purificação interior se desenvolve pela eliminação dos pensamentos e sentimentos indesejáveis, substituindo-os por pensamentos e sentimentos nobres e sutis.

“Pureza física indica desidentificação para com as reivindicações do ego e um retiro, de tempos em tempos, para a reclusão ou solidão. Da purificação da mente surge disposição, focalização, controle dos sentidos e clareza de percepção”.

( Patañjali, Yoga-Sutra, II, 40 e 41 )

“Diz-se que a mente é dúplice: pura ou impura. É impura devido ao contato com os desejos; é pura quando liberta dos desejos. Quando o homem liberta a mente da preguiça e do desmazelo, torna-a imóvel e chega então ao estado onde não há mente, é esse o estado supremo. A mente deve ser contida no interior até a hora em que venha dissolver-se. Essa é a gnose e a salvação; tudo o mais não passa de conhecimento livresco. Aquele cuja mente se tornou pura pela concentração e entrou no Si Mesmo sente uma alegria que não se pode descrever com palavras e que só é inteligível ao instrumento interior (a psique)”.

( Maitrayaniya-Upanishad, VI, 34 )

  • Samtosha que significa “contentamento”. É adquirido através do cultivo de bons pensamentos e sentimentos. Estes envolvem a Alma Iniciada em profunda paz ( shanti ) e tranqüilidade que, por sua vez, o levam à serena aceitação de seu karma . A Alma Iniciada sempre extrai uma plenitude de alegria daquilo que ela tem e daquilo que ela é, sem que nenhuma prova externa nem qualquer dificuldade interna possa lhe tirar a serenidade. Ela deve apreciar aquilo que tem, encontrar o bastante mesmo no pouco que possui. Pelo contentamento, a Alma Iniciada cria dentro de si uma chama de beatitude que irradia e influencia tudo que a rodeia.

“Uma alegria incomparável resulta do contentamento”.

( Patañjali, Yoga-Sutra, II, 42 )

“Quando alguém permanece calmo e sereno no meio de sofrimento, quando não espera receber do mundo objetivo permanente felicidade e quando é livre de apego, medo e ódio – então é ele um homem de perfeita sabedoria”.

( Bhagavad Gita, II, 56 )

  • Tapas que significa “austeridade”. Esta virtude é indispensável à disciplina e à purificação. Através da austeridade a Alma Iniciada consome suas impurezas físicas, emocionais e mentais pela ação do fogo interior que as queima e transmuta. Por esta prática a Alma desenvolve a força de vontade, o poder mental, a coragem, a moral, a dignidade, enfim, um caráter construtivo e saudável. A força de vontade, que se expressa por esforço de continuidade, tem como pré-requisitos a paciência e a perseverança. A Alma Iniciada deve estar pronta para suportar todas as dificuldades que irá encontrar, aceitar o esforço sobre si e até mesmo o sacrifício que implica a exigência de permanecer imóvel ou de guardar silêncio, aplicando-se a todas as disciplinas necessárias.

“Através da remoção das impurezas chega-se à austeridade, onde o corpo e os órgãos dos sentidos adquirem grande sensibilidade”.

( Patañjali, Yoga-Sutra, II, 43 )

“O culto as Divindades, a reverência aos Mestres e Sábios, além da pureza, a retidão, a continência e a não-violência – a isto se constitui a austeridade do corpo. As palavras que não perturbam, que são verdadeiras, agradáveis e benéficas, bem como a prática do estudo das Escrituras – a isto se conhece como as austeridades da palavra (fala). Serenidade mental, bondade, silêncio, autocontrole e purificação dos estados interiores – a isto se chama de austeridade da mente. Quando essas três austeridades são praticadas com fé suprema por homens íntegros e que não anseiam pelo fruto de suas obras, é qualificada como da natureza de sattva (equilibrada). Quando feita com ostentação ou para assegurar a cordialidade, a reverência e a veneração alheias, é qualificada como da natureza de rajas (agitada ou inconstante). Se for feita por forças de concepções que tenham o objetivo de torturar a si mesmo, ou que tenha a finalidade de maltratar outra pessoa, é qualificada como da natureza de tamas (inerte ou mórbida)”.

( Bhagavad Gita, XVII, 14-19 )

  • Svadhyaya que significa “entrar em si mesmo”. Também chamada de auto-educação, sua prática requer a permanente e profunda investigação interior a respeito de sua natureza, origem e finalidade. É a busca do conhecimento de lei que rege intimamente a sua evolução, lei esta que está ligada ao grau evolutivo em que se encontra. Para isso é necessário um contínuo e aprimorado estudo das questões divinas e sagradas como, por exemplo, as Escrituras Sagradas. A parte mais importante desta virtude é o estabelecimento de comunicação entre o eu inferior (a personalidade) e o Eu Superior (a individualidade), possibilitando a Alma Iniciada receber o conhecimento diretamente da fonte interna, unindo-se a ela.

“Através do mergulho em si mesmo ou auto-análise, descobrimos a tendência de nossas aspirações mais elevadas”.

( Patañjali, Yoga-Sutra, II, 44 )

“Integrado em Deus, vive ele vida divina e percebe o espírito de Deus em todas as criaturas, porque sabe que todas as coisas têm em Deus o seu íntimo ser”.

( Bhagavad Gita, IV, 29 )

“O estudo e a interpretação das Escrituras Sagradas são uma fonte de alegria para o estudante dedicado. Ele integra sua mente e torna-se independente dos outros; dia a dia vai ganhando poder espiritual. Dorme tranqüilo e é o seu próprio médico. Controla os sentidos e maravilha-se no Um. Crescem-lhe a intuição e a glória interior, e ele adquire a capacidade de fazer o bem ao mundo”.

( Shata-Patha-Brahmana, XI, 5, 7, 1 )

  • Ishvara-pranidhana que significa “entrega a Deus”. Esta virtude é a principal para aqueles que, com tendências emocionais, escolhem o caminho da devoção para se realizarem no Senhor. Sua prática nos leva a consagrar à Deus todos os nossos atos, palavras e pensamentos, quer sejam de caráter religioso ou profano. Como nos ensina Sri Sathya Sai Baba :

“Entregar-se a Deus significa deixar tudo à Sua Vontade. É a forma mais elevada de Amor Divino. O Amor Divino e a entrega a Deus (o fruto final) incutirão grande coragem para enfrentar qualquer emergência; essa coragem é a Coragem Divina. O Puro Amor Divino é o estágio em que se chega onde à única coisa que importa é o serviço ao Senhor, e tal serviço é sua própria recompensa”.

Consagrar todas as suas experiências ao Poder Divino, além de expandir e lapidar o amor, nos desenvolve a confiança em Deus, nossa capacidade de ter fé. Esta prática nos alinha, sintoniza e intensifica nosso canal com o Propósito Divino. Nosso amor pelo próximo se torna maduro e consciente, transformando-se em compaixão. Nosso querido Sri Sathya Sai Baba nos aponta o caminho:

“O amor e a fé são os dois remos com os quais se pode conduzir o barco pelo agitado mar da vida”.

“A total auto-entrega a Deus permite-nos chegar ao estado de perfeita comunhão”.

( Patañjali, Yoga-Sutra, II, 45 )

“A eliminação dos desejos não significa parar com o cumprimento de nossos deveres espirituais e profanos, mas consagrá-los a Deus”.

( Narada, Bhakti-Sutra, 8 )

“Mas, quem de coração puro se voltar a Mim e fizer em Meu espírito tudo quanto faz; quem renunciar a si mesmo e, dia e noite, firmando em Mim, Me servir – esse será salvo por Mim do tempestuoso mar da existência desse inconstante mundo do nascer e do morrer, porque buscou refúgio em Mim”.

( Bhagavad Gita, XII, 6 e 7 )

 

 

NARADA

Dr. Roberto Nogueira

Fisioterapeuta, Terapeuta dos Campos Sutis e Prof. de Yoga