A RETA CONDUTA
OS PRINCÍPIOS ÉTICOS DO COMPORTAMENTO
NO SISTEMA FILOSÓFICO DO YOGA
(1ª PARTE)
Refere-se ao domínio dos impulsos inferiores inerentes a todos os seres vivos. Os princípios do autocontrole formam a base do dharma , não sendo particularidade de nenhuma escola filosófica. O autocontrole é o aniquilamento de determinadas características de comportamento que se constituem em barreiras no caminho espiritual. Os princípios de autocontrole estão organizados em cinco aspectos:
- Ahimsa que significa “não violência” de ações, palavras e pensamentos. É o ponto máximo da ética hinduísta e, por isso, é considerado o principal aspecto de autocontrole, servindo os demais para consolidá-lo. Mahatma Gandhi definiu “não violência” como humildade, no sentido de não produzir sofrimento a ninguém, nem a nada que tenha vida e nem a si mesmo, pois, em última análise, o sofrimento que causamos aos outros é o sofrimento que causamos a nós mesmos.
“Estando firmemente estabelecido na não-violência, deixa de existir hostilidade ou ressentimento ao seu redor”.
( Patañjali, Yoga-Sutra, II, 35 )
Para a Alma Iniciada, toda ação, palavra ou pensamento, não importa se bom ou mal, tem um único destino: nós mesmos. Por outro lado, a prática de ahimsa requer a constante observação sobre os pensamentos, pois eles representam a estrutura interna de nossos atos futuros. Usufruindo os ensinamentos de Paramahansa Yogananda , podemos acrescentar dois pensamentos dele:
- “Mude seus pensamentos, se desejar mudar as circunstâncias da sua vida. Uma vez que é o único responsável por seus pensamentos, somente você poderá mudá-los. Você vai querer fazê-lo, quando compreender que cada pensamento cria as coisas de acordo com sua própria natureza. Lembre-se de que essa lei atua sempre, e que o que você exibe está sempre de acordo com a espécie de pensamentos que tem habitualmente. Portanto, comece agora a ter apenas os pensamentos que lhe trarão saúde e felicidade”.
- “O homem espiritualizado vence a ira com a calma, extingue querelas com o silêncio, dispersa a desarmonia com palavras suaves e envergonha a descortesia mostrando consideração para com os outros”.
- Satya que significa “ser verdadeiro”. A Alma Iniciada, sempre e em qualquer circunstância, deve ser autêntica em suas atitudes, palavras e pensamentos, tanto para com os outros como para consigo mesmo. Como nos fala Sri Sathya Sai Baba:
“Se você disser a verdade, diga-a clara e docemente. Nunca diga a verdade de maneira pouco clara e também não diga inverdades da maneira que lhe agrada. Verdade não significa simplesmente abster-se de mentir. Tome a verdade como sua essência verdadeira, como o alicerce de sua vida. Você deve estar preparado para renunciar a todas as coisas em favor da verdade. A verdade é o alento vital da palavra”.
“Estando firmemente estabelecido na veracidade, a própria ação é sua recompensa”.
( Patañjali, Yoga-Sutra, II, 36 )
Para que este princípio seja praticado em toda a sua plenitude e beleza, a Alma Iniciada deve manter a inocência, a espontaneidade e a ausência de malícia.
“Bem-aventurados os que são puros de coração, porque verão a pureza de Deus”.
(Jesus, Sermão da Montanha)
“Não há virtude mais excelente que a veracidade nem pecado maior que a mentira. Portanto, o homem virtuoso deve buscar refúgio na veracidade com todo o seu coração”.
( Mahanirvana-Tantra, IV, 75 )
- Asteya que significa “não se apropriar ilegalmente” daquilo que não te pertence. Este preceito se estende desde objetos materiais até os níveis mais sutis como, por exemplo, a aceitação indevida de agradecimentos e honrarias por ações que não lhe dizem respeito, pois foram feitas por outrem, ou a usurpação de idéias alheias, ou ainda, a vampirização da energia dos outros. Através deste preceito, mantém-se a própria dignidade. Aquele que assim se estabelece, tudo recebe de todas as partes e por inúmeros meios. A elite dos seres é atraída em sua direção.
“Estando firmemente estabelecido na honestidade, sente-se como possuidor de toda a riqueza do mundo”.
( Patañjali, Yoga-Sutra, II, 37 )
Este preceito nos ensina a amar o próximo e nos coloca no caminho da doação e do desprendimento, fazendo-nos entender a frase de São Francisco de Assis “é dando que se recebe”. É por falta de amor que sentimos necessidade de tirarmos do próximo aquilo que lhe pertence. Neste caso, podemos seguir os ensinamentos de Paramahansa Yogananda :
“Todos os dias, faça alguma coisa em benefício dos outros, mesmo que seja algo insignificante. Se você quer amar a Deus, é preciso amar as pessoas. Elas são filhas Dele. Você pode ser prestativo no plano material – dando aos que precisam – e no plano mental – dando conforto aos sofredores, coragem aos temerosos, amizade divina e apoio moral aos fracos. Você também semeia bondade, quando desperta nos outros o interesse por Deus e quando cultiva neles um maior amor a Deus, uma fé mais profunda Nele. Quando deixar este mundo, as riquezas materiais ficarão para trás; mas todas as suas boas ações o acompanharão. Pessoas ricas que vivem na avareza e pessoas egoístas que nunca ajudam os outros não atraem riqueza em sua próxima vida. No entanto, os que distribuem e compartilham, quer tenham muito, quer tenham pouco, atrairão a prosperidade. Essa é a lei de Deus”.
- Brahmacharya que significa “aquele que se consagrou ao ascetismo e ao estudo”. Confere o perfeito domínio sobre as sensações que causam prazer, quer sejam sexuais, gastronômicas ou de um dos sentidos.
“Estando firmemente estabelecido na vida casta, com domínio sobre as sensações que causam prazer, o vigor é adquirido”.
( Patañjali, Yoga-Sutra, II, 38 )
É a renúncia ao desejo de tornar a experimentar as sensações de prazer que ficam registradas na memória e que são motivos para nos manter com vícios e hábitos, que condicionam a mente e produzem ansiedade e descontrole psicológicos. Paramahansa Yogananda nos ensina:
“Sempre que houver um desejo avassalador em seu coração... use o seu discernimento”.
E Sri Sathya Sai Baba completa:
“Os desejos conduzem à ruína final. Nunca podem ser destruídos mesmo quando atendidos. Crescem a cada satisfação, e se tornam monstros que devoram suas vítimas; assim, tentem reduzir seus desejos, continuem reduzindo-os”.
- Aparigraha que significa “ausência de cobiça”. Este preceito refere-se à ânsia de possuir bens materiais ou méritos espirituais tais como o Céu ou o Nirvana , bem como algum estágio mais nobre no caminho espiritual. Este aspecto educa a Alma Iniciada para que não tenha medo de perder o que foi adquirido. Desta forma, ganhamos tranqüilidade, segurança e paz interior, necessárias ao desenvolvimento espiritual. Conforme diz Sri Sathya Sai Baba:
“Renuncie, e alcance a paz. Apegue-se, e seja enlaçado por problemas. Apesar de toda sua riqueza, hoje, o homem é infeliz. Vive permanentemente arruinado pela falta de paz... Cada um pede: ‘ Eu quero paz '. Eu é ego. Quero é desejo. Elimine o ego e o desejo. Restará a paz . Ego e desejo envolvem e enclausuram a paz . Removido o envoltório-prisão, a paz, por si mesma, se manifestará”.
“Estabelecendo a ausência de possessividade, surge a compreensão do significado da existência”.
( Patañjali, Yoga-Sutra, II, 39 )
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