OS OBSTÁCULOS QUE NOS DESVIAM DO CAMINHO

O Iniciado deve conhecer os obstáculos que comumente impedem ou dificultam a reta conduta, a fim de removê-los. São nove condições normalmente encontradas nas várias existências da Alma e que podem constituir um obstáculo para aquelas que ainda não entenderam o real sentido de tais condições – amadurecer a Alma pela conscientização de seus sentimentos bloqueados (mágoas, ressentimentos, tristezas, desamores, etc.) e atitudes mentais sabotadoras (vícios, preconceitos e crenças limitadoras).

“Doença, desânimo, dúvida, falta de atenção, preguiça, preocupações mundanas, ilusão, progresso incompleto, instabilidade, estes nove causam a distração da mente e são os obstáculos”.

( Patañjali, Yoga-Sutra, I, 30 )

A atitude mental voltada para o exterior e constituindo obstáculo à reta conduta se traduz por “distrações”. As distrações são aquelas condições que desviam o iniciado do caminho, trazendo a sua atenção de volta aos objetos do mundo exterior. Esses obstáculos são:

  • Doença: traz dor e mal-estar; a preocupação com a dor. A mente se volta ao corpo físico, tornando-se difícil mantê-la voltada ao seu centro espiritual.

Mas, para o iniciado atento, a doença tem novo significado. Ela sinaliza onde e o que devemos mudar. Ela nos traz de volta ao caminho se mantemos o foco no centro espiritual. Para a Alma comum, a doença tem uma dimensão dolorosa, sofrida, limitadora como um castigo (e é um erro pensar assim). Mas, para a Alma Iniciada, a doença ganha nova perspectiva e vem mostrar uma necessidade interna que não se consegue manifestar, vem reconduzir o Iniciado ao seu caminho, como também, vem desmanchar velhas crenças e abrir novos horizontes. Para o Iniciado a doença é uma benção do Universo – ele a aceita com humildade e dignidade.

  • Desânimo: é causado pela falta de força e energia, carência de vitalidade. No estado de prostração ou desânimo, sem vontade ou objetivo que direcione a Alma, a consciência permanece dispersa, prevalece o devaneio, o sono desperto. A Alma comum, por não entender e muito menos aceitar o Propósito Divino, consome toda sua energia em qualquer experiência que entre em desacordo com sua pequena vontade estreita e limitada, levando-a ao desânimo. Mas, a Alma Iniciada se revigora a cada obstáculo que depara, entendendo que eles são colocados a sua frente por ação divina e, portanto, necessário ao seu crescimento. Sua fé é inabalável e seu entusiasmo é automaticamente renovável por entregar todas as suas ações ao Universo.
  • Dúvida: impede a nossa entrega confiante ao Mestre Interno. A dúvida sobre a validade de certas técnicas faz aparecer o desânimo. Ficamos oscilando entre os extremos e criamos a indecisão. Quem duvida não age e não pratica. É preciso que se escolha e se assuma as decisões tomadas, responsabilizando-se pelas conseqüências. Nesta vida não existem erros e acertos, mas apenas lições. A Alma poderá gostar dessas lições ou considerá-las desprezíveis, mas a cada dia ela terá a oportunidade de aprendê-las. Através da experimentação, num processo de tentativas e erros ou acertos, a Alma humana amadurece e cresce. As experiências que não deram certo, assim como as bem sucedidas, fazem parte do processo de aprendizado. A alma será colocada diante de cada lição, de diversas maneiras, para que exercite seu livre-arbítrio e dissolva a dúvida, até que a tenha aprendido. Quando isto ocorrer, poderá passar para a próxima. Sendo assim, o aprendizado nunca termina. Não existe parte da vida que não contenha lições sobre o livre-arbítrio e o exercício da entrega e confiança no Poder Superior. Se você está vivo, então existem sempre estas lições para aprender.
  • Falta de atenção: também chamada de indiferença e negligência. Enfraquece a mente e atrapalha a reta conduta. Diante de várias alternativas, escolhe-se qualquer uma. No caminho iniciático isto se torna um perigo, pois certas decisões, quando mal aplicadas, podem causar sérios distúrbios. Alerta-se aqui que a indiferença não deve ser confundida com desapego e equilíbrio na atitude. A indiferença é fruto do desamor, de um coração duro e estéril, que leva a Alma a se fechar ora na tristeza ora no ressentimento. A Alma iniciada, no entanto, deve ser dotada de desapego e equilíbrio na atitude, fundamentada no amor divino, com o coração aberto e entregue aos desígnios do Universo e, sendo assim, não dando atenção a certos aspectos da dualidade, mantendo-se no caminho do meio – o caminho do guerreiro da paz.
  • Preguiça: causada na atualidade, principalmente, pelo conforto da vida moderna e a tendência a evitar esforços. Impede o progresso da Alma, levando-a ao estado de torpor mental que, por sua vez, poderá se transformar em doença. Na vida moderna, cercada de aparelhos eletro-eletrônicos, computadores, celulares, etc., a Alma comum se dispõe desses aparelhos como passatempo, para se divertir e descansar, alimentando a preguiça, a alienação e a letargia mental, enquanto a Alma Iniciada usufrui desses aparelhos não só para interagir com o mundo, mas para ganhar tempo e se dedicar mais ao seu caminho iniciático.
  • Preocupações mundanas: alimentam as angústias, as ansiedades e as ambições, fazendo com que a Alma não deixe de desejar as coisas do mundo material, sentindo-se apegada a elas, valorizando-as além do necessário e mantendo-se aprisionada às suas tendências mundanas, contraditórias ao caminho iniciático. A Alma Iniciada entrega não só os seus desejos mundanos, mas também os espirituais, à Ordem Cósmica, Àquele que Tudo Sabe e espera pacientemente por aquilo que lhe pertence. Enquanto isso, ela trabalha incansavelmente.
  • Ilusões: gerada pela falta de discernimento, a Alma humana tem a percepção errada da realidade, criando fantasias que se enraízam profundamente na Alma, congelando-se num sistema de crenças de difícil dissolução, principalmente se houver orgulho e vaidade em não aceitar as transformações impostas pela Vontade Superior. O Iniciado, por estar de coração aberto, livre de preconceitos, confia no Plano Divino, evitando, assim, a formação de fantasias e de outros produtos próprios do condicionamento mental.
  • Progresso incompleto: causado pela ansiedade de progredir no caminho, onde sai atropelando as diferentes fases a serem alcançadas. O caminho espiritual é uma verdadeira corrida de obstáculos e estes devem ser transpostos integralmente, um a um. O progresso incompleto seduz e corrompe a Alma que tenta se enveredar no caminho espiritual porque ainda alimenta suas ilusões e sistemas de crença que a deixa impregnada pelas preocupações mundanas, a preguiça e a falta de atenção. A Alma Iniciada deve estar em constante vigilância e análise para que não recaia neste tipo de aprisionamento. Para aquela que luta por se desidentificar dos aspectos inferiores de sua personalidade, a fórmula é “orai e vigiai” conforme nos ensinou nosso Divino Mestre Jesus, o Cristo. Orai para que estejas sempre em contato com a Eterna Fonte de Luz Divina e alinhado ao Propósito Divino. Vigiai para que tenhas a possibilidade de discernir os falsos propósitos, de descondicionar a mente de todo lixo que nos foi transmitido e largar as nossas tendências inferiores e, desta forma, irradiar a Luz Divina para toda a Humanidade e realizar o Plano Cósmico do Céu na Terra.
  • Instabilidade: ocorre quando a Alma atinge um determinado estágio e de repente regride, mesmo sem interromper suas práticas espirituais. Isto acontece porque a Alma não progrediu corretamente, e não atingiu o grau de maturação necessário em cada fase. Normalmente, neste caso, a Alma comum se desanima, se desespera ou se angustia e cria um sentimento de desilusão e, muitas vezes, abandona a prática espiritual, dando-lhe descrédito. Já a Alma Iniciada não desiste e entende que tudo isto faz parte do processo iniciático, aprendendo com a instabilidade e a impermanência da vida. Ela aceita a ocorrência com resignação e humildade, tomando para si a responsabilidade e o desafio de transpor mais um obstáculo. Seu alinhamento com o Propósito Divino está fortalecido o suficiente para compreender que tudo acontece por determinação do próprio Universo – não há uma folha que caia da árvore sem a permissão divina.

“Na repetição de Om é preciso haver reflexão em meio à repetição. É o que capacita a consciência a voltar-se para dentro, resultando na eliminação de todos os obstáculos”.

( Patañjali, Yoga-Sutra, I, 28 e 29 )

“ Nachiketa disse: ‘Dize-me, Ó Morte! O que é outro [que não esteja contido em] certo e errado, causa e efeito, passado e futuro?'

“ Yama disse: ‘É Om , exposto pelos Vedas , o propósito das austeridades e a meta da pureza. Om é de fato Brahman . É o mais elevado. Aquele que conhece esta palavra pode obter tudo que deseja. Om é o fundamento. Aquele que encontra esse fundamento é digno da companhia dos santos'.”

( Katha-Upanishad, I, ii, 14-17 )

NARADA

Dr. Roberto Nogueira

Fisioterapeuta, Terapeuta dos Campos Sutis e Prof. de Yoga