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MAYA: A IMPERMANÊNCIA DO MUNDO MANIFESTADO ATRAVÉS DO PRINCÍPIO DA BIPOLARIDADE A ação do Absoluto provoca a criação espontânea através de interação dos princípios da bipolaridade, que se manifestam primariamente por intermédio do princípio dualístico da energia. Energia é a primeira manifestação do Absoluto. Todas as coisas se compõem de energia, inclusive o corpo humano. Isto não quer dizer que nossos corpos contêm simplesmente energia no sentido comumente reconhecido, mas que eles são energia manifestada como matéria sólida, líquida, gasosa ou atômica. Esta energia tem padrões específicos de fluxo, que ditam sua função. No corpo esta função é propagar a vida por todas as células. As células são feitas de moléculas que, por sua vez, são formadas por átomos. Os átomos são criados por espirais de energia – pequenos vórtices de substância cósmica que fluem em harmonia com o fluxo maior da vida universal. O centro do vórtice atômico é o centro do próprio universo do átomo. Cada espiral de energia viaja indefinidamente em um expansivo tipo de difusão a partir de sua fonte. A fonte é conhecida como “tchukon” ( “tchu” , aqui; “kon” , agora). É o ponto no espaço que proporciona abertura para que a vida penetre no mundo material. Quando consideramos o princípio da espiral de energia, devemos olhar para a espiral universal em que vivemos. Desde a criação do universo, todas as estrelas e planetas de nossa galáxia vão-se distanciando em uma grande espiral. Existem espirais de energia em todo nosso ser, desde o fio cabelo de nossa cabeça até a ponta das unhas de nossos dedos dos pés. No nível microscópico encontramos uma outra espiral muito importante: são as moléculas que determinam cada coisa ao nosso respeito, que são feitas também de espirais. São os “genes” que transportam nossa hereditariedade e compõem os cromossomas do corpo. O fato de que toda energia se move em uma espiral já era conhecida centena de anos atrás. Mesmo a curva da luz, que um dia se acreditou que irradiava em linha reta, eventualmente se tornará conhecida como uma espiral. Tem-se a tendência a pensar na espiral como se movendo em um único sentido. Entretanto, existem dois sentidos da espiral e eles são opostos. É a partir deste conceito que nasce o princípio da bipolaridade, o princípio da dualidade. Desde que toda ação produz uma reação igual e oposta, qualquer fluxo de energia terá sua parte recíproca. Para compreender isso, pense numa corda composta de duas fibras principais, torcidas em torno uma da outra. Não existe obstrução de uma a outra e elas se ajustam adequadamente. Se estas duas espirais de energia fluem em sentidos opostos, não existe choque, especialmente se cada uma gira na mesma velocidade em torno de seu próprio eixo. Cada espiral também se compõe de espirais menores de energia, exatamente como uma corda e estas espirais menores se compõem de outras menores ainda. As duas energias principais nesta corda cósmica são chamadas em japonês antigo de “Tsanagi” e “Tsanami” . Elas emergem do ponto central chamado “tchukon” , isto é, aqui e agora. Formam o início da vida no plano material através de vários níveis de energia. O corte transversal da imagem das duas energias é familiar a muitos de nós. É o símbolo que acompanha todo tratado de medicina e filosofia orientais. As duas energias se chamam aqui “yin” e “yang” . Cada uma é o oposto da outra, contudo contém uma pequena porção da outra em si mesma. A unidade se dicotomiza, se divide em dois, no que se chama a Culminação Suprema ou “tai-chi” . Nasceu a dualidade, nasceu o universo, começou o processo da criação e da destruição, da vida e da morte. Os representantes dessa dualidade são yin e yang , as duas formas idênticas e opostas da energia. Esse processo contínuo de oposição entre yin e yang ficará sempre sob a dependência harmonizadora do Tao , o Absoluto. Essas relações se evidenciam na imagem do “tai-chi” , onde a parte clara representa o yang e a escura o yin . O círculo, que contém os dois, simboliza o Tao , o Absoluto. O diagrama “yin-yang” representa as duas grandes forças do Universo – trevas e luz, negativo e positivo, feminino e masculino – a serem mantidas em total equilíbrio e igualdade de intensidade; juntas, elas controlam todas as coisas no mundo visível. Existe um ponto preto, ou embrião, no espaço branco e um outro, branco, no espaço preto. Isto é de fundamental importância para o simbolismo, uma vez que não há nenhum ser que não contenha em si o germe de seu oposto. Por outro lado, se estas duas qualidades permanecessem indefinidamente em compartimentos estanques, toda a força de interação estaria perdida; não haveria a combinação, no “jogo” mútuo da criação, que é responsável pelo nascimento do mundo fenomenal e que, em última análise, o devolverá à unidade. As duas forças são interdependentes e nenhuma delas pode existir isoladamente, nem ser completa em si mesma. As duas forças, perfeitamente equilibradas, mantêm-se unidas no círculo da unidade que a tudo abarca. Essas duas forças são os diferentes aspectos da plenitude, os dois lados de uma mesma moeda. É a divisão e a reunião ao mesmo tempo e, se a elas nos referimos como forças conflitantes, teremos que afirmar também que são forças co-atuantes e que a tensão em que são mantidas é aquela da harmonia, não do conflito. O “yin-yang” simboliza toda a existência que ocorre em pares, os pólos complementares da natureza, embora não possam ser tomados como substâncias ou entidades e sim como qualidades inerentes a todas as coisas. Entre eles existem ação e reação recíprocas, eternas, interdependência, mutação, fusão dos assim chamados opostos. Eles existem “por necessidade” e estão presentes em todo o simbolismo das forças ao mesmo tempo contrárias e co-operantes. O princípio da bipolaridade emerge da Causa Primeira, que atuando em e através de todas as coisas, é responsável pelas modificações, mutações e toda transformação. Ele diz respeito, basicamente, ao ritmo de vida; é a “união perfeitamente equilibrada”, que estabelece a harmonia interna no homem e no Universo, fazendo com que o homem sinta-se em paz consigo mesmo e com o mundo a sua volta; vale dizer, com o mundo interior e o exterior. Sem ferir quem quer que seja, ele devolve o homem aos outros e a si mesmo e gera o Homem Perfeito, o Sábio. Não é possível se pensar na bipolaridade como “bem” e “mal”, relacionando-as com luz e trevas. Nenhuma delas pode existir, senão em relação à outra. Nesse contexto é interessante mencionar o desequilíbrio do pensamento ocidental, que enfatiza mais uma metade do homem pleno do que a outra. Falar de uma atitude “positiva”, de um bem “positivo” significa elogiá-lo, enquanto dizer o contrário ou acusar alguém de ser “negativo” é imputar culpa; como se fosse possível, por exemplo, a eletricidade funcionar apenas com um pólo positivo. O equilíbrio exige que cada coisa seja empregada em seu devido lugar, com flexibilidade e alternância. Onde a relatividade domina, o “local adequado” é que é importante. O que pode parecer bom para alguns, certamente será ruim para outros. Existe ainda um grande conflito no homem ocidental que está relacionado com a vida material e a espiritual, pois se acredita que para termos uma vida espiritual deve-se negar a material ou vice-versa. Trata-se de um absurdo, porque não há realização espiritual sem a realização material. E isto não quer dizer que para realizarmo-nos espiritualmente devemos ser ricos e de grandes posses. A realização material a que me refiro é a concretização do idealismo espiritual; é a felicidade interna manifestada no meio externo. Dentro da filosofia da Alma não se comete o erro psicológico de concentrar-se apenas no aspecto do bem; ignorar o aspecto sombrio significa deixar o homem indefeso quanto ao lado sombrio da natureza e de si mesmo. Ele deve ser capaz de reconhecer perfeitamente ambas as forças, aceitá-las e integrá-las. A Alma iluminada não é aquela que é perfeita, mas aquela que reconhece a sua imperfeição e a aceita com dignidade e autoridade de quem, sabiamente, entrega tudo a ordem divina. Todas as alternativas têm sua origem e se manifestam umas nas outras; além disso, influenciam a misteriosa lei de atração de opostos e afins, que atua precisamente através do reino da dualidade. A virtude só é conhecida em oposição ao vício; o dia não seria conhecido como tal se não houvesse a noite. Cada aspecto é não apenas complementar, mas inevitável. A simples asserção de uma negativa implica seu oposto, uma asserção positiva. Tão logo uma qualidade seja nomeada e mencionada, seu oposto passa a existir automaticamente. Está criada a dualidade. Paralelamente ao princípio de mudança na atuação da bipolaridade, existe também o princípio da reversão, da “reversibilidade universal”. O Absoluto é imutável, constante, absolutamente puro, mas uma vez manifesto no reino da dualidade, o bem pode se transformar em mal e vice-versa. Cada um pode atingir um ápice e descer do outro lado, possibilitando, assim, o aparecimento de seu oposto. Não existe nada absoluto no mundo fenomenal: o amor pode se transformar em ódio, a alegria e tristeza se alternam com facilidade, os conceitos de alto e baixo podem ser revertidos. O aspecto yin é o lado escuro, negativo, potencial, existencial e natural. Ele é o caos primordial das trevas, do qual o mundo fenomenal emergiu para a luz da criação; este caos, porém, não deve ser equiparado ao Absoluto, que é pré-caos. O yin é o aspecto eternamente criativo, feminino, a Mãe Maior, razão pela qual o yin sempre precede o yang , já que este nasceu do potencial e representa a luz que emergiu das trevas para se tornar real, essencial, espírito ou intelecto. O aspecto yin é inércia, contração, condensação, retração; yang é expansão, dispersão, avanço. Mas, através de sua infinita interação, um pode dar origem ao outro, o que realmente ocorre. O nascimento do princípio feminino resulta em morte, e a morte dá origem a uma nova vida. A luz nascida das trevas vai se enfraquecendo até voltar a ser trevas, de onde ressurgirá uma nova aurora. Juntos eles estão sempre se contraindo e expandindo, indo e vindo, abrindo e fechando, tudo dentro do processo de transformação e mutação. Toda vez que se atinge um clímax, ocorre uma transformação, uma evolução efetiva. Toda vez que ocorre uma evolução efetiva, a sobrevivência continua. Quando ocorre a estagnação de um dos princípios da bipolaridade, cria-se uma desarmonia e a vida se refrata e se diversifica. Este simbolismo tem implicações tão profundas que é transmitido a todas as formas de vida e a toda a estrutura da Alma humana. Ele deve ser avaliado em diferentes níveis, da vastidão do universo à intimidade do lar e a todas as ramificações dos reinos animal, vegetal e mineral. O yin é o aspecto maternal, a misericórdia e a compaixão, estendendo-se do mais humilde e inferior camponês à compaixão e maternidade serenas e abrangentes da Mãe Lua, ou também, a “ Maha Shakti ” (Grande Mãe). O aspecto yang , paternal, significa a justiça, o método e a força do sol. Outro símbolo do yin é o quadrado, que representa a Terra, enquanto o círculo dos Céus representa o yang . A forma arredondada do yang simboliza movimento, dinamismo e criatividade, enquanto o quadrado do yin é estático e passivo. Como razão e emoção, o yin-yang também representa o ser e o pensamento. O aspecto feminino (instintivo, intuitivo e emocional) também representa a profundidade, enquanto o masculino (inteligente e racional), é a altura. Cada um tem por função acusar o outro e reconciliar-se com ele. Nos ritmos da vida, as interações dos aspectos bipolares também são responsáveis pela calma e agitação, pela solidão e a busca, pela vida do eremita nas montanhas e pelo trabalho dos administradores no mundo. A energia yin eleva-se da terra e cria a energia yang . A energia yang desce do céu e penetra na terra, recriando, por sua vez, a energia yin . Se as duas forças estão atuando em perfeito equilíbrio, obtém-se uma unidade que, em si, é uma força, e que, ao mesmo tempo, possui uma força controlada atrás de si. Por outro lado, o desequilíbrio e a desarmonia não possuem qualquer força; ao contrário, desintegram-se em total ineficácia. Qualquer coisa que não se encontre em harmonia, que esteja errada ou desajustada, seja física, mental ou espiritualmente no indivíduo em particular, ou no mundo em geral, deve ser vista como uma falta de ou um distúrbio no equilíbrio das forças. “Só temos consciência do belo, quando conhecemos o feio. Só temos consciência do bom, quando conhecemos o mau. Portanto, o Ser e o Existir, se engendram mutuamente. O fácil e o difícil se completam. O grande e o pequeno são complementares. O alto e o baixo formam um todo. O som e o silêncio formam a harmonia. O passado e o futuro geram o tempo. Eis porque o sábio age pelo não-agir. E ensina sem falar. Aceita tudo que lhe acontece. Produz tudo e não fica com nada. O sábio tudo realiza – e nada considera seu. Tudo faz – e não se apega à sua obra. Não se prende aos frutos da sua atividade. Termina a sua obra, e está sempre no princípio. E por isto a sua obra prospera.” (Tao Te King – verso n o 2 – Síntese das Antíteses Lao Tse – trad. Huberto Rodhen) Tudo no macro e microcosmo é regido pela lei do equilíbrio – a equanimidade. É através do perfeito domínio sobre o equilíbrio dinâmico que evoluímos. O princípio básico da existência progressiva da vida é o equilíbrio da bipolaridade – positivo e negativo – que se processa no campo do relativo, enquanto a interação entre ambos, se interpenetrando, é campo do Absoluto. Nossa meta para a evolução é, através dos campos físico, mental e espiritual, equilibrar as forças positivas e negativas. Quando atingimos este estado de total equilíbrio, transcendemos o relativo chegando ao Absoluto. E só atingimos o estado de total equilíbrio, quando entendemos que o positivo e o negativo, o belo e o feio, o bom e o mau, a luz e as trevas, nada têm de real e eterno; fazem parte da impermanência da vida. Estão em constante mutação. São elas, manifestações de Maya – a ilusão. É quando, então, nos integramos no Absoluto. NARADADr. Roberto Nogueira Fisioterapeuta, Terapeuta dos Campos Sutis e Prof. de Yoga
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