LIBERDADE, ESCOLHA E RESPONSABILIDADE DO ADOECER
Minha intenção ao escolher este tema, é mostrar a correlação que existe entre a filosofia ocidental existencialista e a filosofia oriental hindu, principalmente a escola chamada Vedanta.
Esta escola, que se mantém íntegra a pelo menos uns 3 mil anos, recebeu um grande impulso a partir de Shankara . Este foi um grande filósofo da Índia que viveu entre 788 e 820 d.C. e fundamentou a escola Vedanta Advaita , que ensina a unidade essencial e única de todos os seres.
Vedanta , atualmente, é a escola filosófica de melhor reconhecimento e a mais importante na Índia. A cada dia, ganha novos rumos nos meios ocidentais, graças aos eminentes divulgadores Deepak Chopra (médico indiano erradicado nos Estados Unidos) e Fritjof Capra (físico nuclear também nos Estados Unidos).
Vedanta é um corpo de conhecimento contido no final dos Vedas, nos textos chamados Upanishads. Mas outros textos são incorporados ao seu estudo como a Bhagavadgita , os Prakaranagranthas e o Brahmasutra . Ele analisa a natureza do Ser essencial através do questionamento “quem sou eu”. Vedanta afirma que eu sou o total e que nada existe separado de mim e que esta afirmação é algo para ser visto, ser entendido, aqui e agora.
Todo o pensamento por mim exposto no texto está baseado nos ensinamentos de Vedanta .
Começarei dizendo que é um grande privilégio ser um humano. E por que? Por justamente poder afirmar isto. Um macaco não pode dizer “eu sou um macaco”. Uma vaca não reconhece que é uma vaca. O homem é o único ser auto-consciente. E como resultado de sua auto-consciência, o homem é capaz de fazer escolhas. Eu posso escolher comer batatas ou verduras. Mas uma vaca não tem escolha, vai sempre comer capim quando estiver com fome. Sua natureza não lhe dá liberdade na escolha.
É a liberdade na escolha que, primariamente, assombra o homem, por perceber que a escolha na ação é única e solitária. Aqui surge o medo da vida, a angústia da caminhada solitária em busca da realização de ser feliz . Mas o que é ser feliz? É ser livre: livre da limitação, livre da solidão, livre do desejo, livre dos gostos e aversões, enfim, é ser livre na ação.
Mas a sabedoria oriental diz que nossa capacidade e nosso direito de escolha são somente quanto à ação, jamais quanto aos seus resultados. Isto quer dizer que temos liberdade para escolher que tipo de ação desejamos executar. Possuímos liberdade para experimentar tudo aquilo que desejamos. Mas, uma vez que a ação foi feita, não temos nenhum controle sobre o seu resultado e este pode nos dar prazer ou dor.
Feita a ação, o resultado ocorrerá. Segundo a tradição oriental, esta é a Lei Natural do karma (palavra sânscrita que significa “ação”). Ao seu resultado chamamos de fruto da ação. Não há escolha quanto a ele. Ele não mudará para satisfazer o executor da ação, ao menos que uma nova ação seja feita. A Lei Natural do karma evidencia a todo ser humano a responsabilidade pelos atos praticados. Ao mesmo tempo, o karma nos afirma a liberdade humana. Uma fina rede feita de pensamentos, palavras e ações nos envolve e gera uma força energética que nos conduz a um inevitável resultado.
Nosso comportamento depende deste resultado e está sob a força dos gostos e aversões. Nossa felicidade depende da satisfação deles. Se a ação produzida teve como resultado o que foi desejado, então nos tornamos felizes; caso contrário, nos tornamos infelizes. A partir dos gostos e aversões estabelecemos as normas para julgamento e criamos nossos sistemas de crenças. Se as ações não produzem resultados esperados, julgamo-nos: “os outros são bem sucedidos, eu sou um fracasso”.
Quando o resultado nos causa desconforto, porque não satisfez o conjunto de gostos e aversões, duas variantes aparecem. E mais uma vez optamos por uma ou outra. Ou acolhemos e aceitamos o resultado da ação, agindo pelo não-agir e, desta forma, abrimos o campo das infinitas possibilidades de auto-regulação psico-biológica; ou nos rebelamos e não vivenciamos adequadamente o resultado da ação sem assimilá-lo, agindo pelo re-agir e, agora, gerando estresse que, por sua vez, vai bloquear nossa capacidade natural de auto-regulação psico-biológica.
Aqui, então, surge a doença como sinal de que etapas do crescimento interior não foram suficientemente vivenciadas e assimiladas, deixando para trás um rastro que lentamente se condensa e se manifesta.
Portanto, o que é o agente causador do adoecer? Por que alguns têm tantos problemas de saúde, enquanto outros gozam de excelente vitalidade? Por que tantas dificuldades para uns e outros não? Será tudo isso mero acaso? Não, categoricamente não. É o próprio Ser que, como árbitro de si mesmo e atribuído de um sistema de crenças, indica seu grau de liberdade, responsabilidade e maturidade.
Conforme seu grau de liberdade na ação, a sua responsabilidade sobre a ação, bem como a maturidade de seus atos, os frutos das ações que causam desconforto podem gerar traumas, frustrações e toda ordem de emoções que produzem efeitos adversos diretos na pessoa, tanto fisiológicos como psicológicos. Quando esses choques emocionais se repetem e não são expressos, vivenciados e assimilados, geram-se tensões musculares e, o que é muito pior, tensões viscerais que se acumulam, camada após camada, até formarem um padrão neurótico que se traduz por um encouraçamento somático ou comportamental.
Com a persistência e o agravamento dos encouraçamentos somáticos (musculares e/ou viscerais) podem surgir as mais diversas patologias cardíacas, respiratórias, articulares, posturais e mais uma interminável lista de enfermidades, de acordo com o tipo de choque emocional que a pessoa sofreu e recalcou.
A responsabilidade sobre o adoecer é unicamente da pessoa que adoece. Isto, graças a sua forte identificação com seu sistema de crenças, seus julgamentos e, acima de tudo, a seus gostos e aversões. E quero deixar claro que não faço aqui a apologia da apatia, pois quando o coração de uma pessoa tem gostos e aversões, ela é humana, é eloqüente, enfim, é normal. Ter gostos e aversões é maravilhoso. Do contrário, seríamos como uma pedra. Gostos e aversões nos impulsionam na vida, nos criam objetivos e nos fazem crescer. O problema está no grau de identificação com os gostos e aversões. E antes disso, como base de toda a angústia humana, está o medo da vida - medo da sobrevivência, medo de crescer, medo de perder, medo de ter. . .medo de ser feliz. . .medo de ser. . .medo do medo. Apegar-se a seus gostos e aversões significa parar no tempo, cristalizar-se. O apego permite estancar o fluxo do ter, do perder, do voltar a ter, do crescer, do aprender. . . do viver.
A neutralização do apego aos gostos e aversões nos dá a atitude correta, nos faz aceitar o resultado das ações como uma benção, de braços abertos e o coração alegre, livre de ansiedade, livre das preocupações. O segredo está em agir e aceitar o resultado como ele vem. Isto é viver a vida. É ser consciente e responsável por cada momento presente, pelo aqui-agora. Pois, estar vivo é uma coisa e viver a vida é outra bem diferente. As “UTI”s estão cheias de viventes, mas que não vivem a própria vida. Uma pessoa em coma está viva, mas será que isso é viver? Para viver a vida é preciso se relacionar com o mundo . A intensidade de relação que temos com o mundo está em proporção direta ao exercício da capacidade de escolha. E isto é o grande desafio da vida.
A vida é cheia de escolhas e sem elas a vida não é nada. Compreender a beleza e o privilégio de viver uma vida consciente e responsável é a grande alquimia do Ser.
OM SHANTI PREMA OM
NARADA
Dr. Roberto Nogueira
Fisioterapeuta, Terapeuta dos Campos Sutis e Prof. de Yoga
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