O QUE NOS APRISIONA AO CICLO DE NASCIMENTOS

E MORTES (SAMSARA) E COMO SE LIBERTAR

A causa primária de todos os fatores de aprisionamento é a ilusão acerca da natureza da existência. A Alma humana aceita como verdade o mundo externo que não passa de ilusão, transitório ou impermanente (maya) e desconhece a própria consciência, que está enraizada na Consciência Universal. Essa causa primária é chamada ignorância ou avidya .

A ignorância é a origem do egotismo ou superestimação do Eu, das atrações e repulsões em relação a objetos e exagerado desejo de viver, arrastando a Alma, sem descanso, ao movimento da atividade psicológica.

Esses fatores podem existir em estado latente, atenuado, alternativo ou em plena expansão. Os quatro estados representam graus progressivos de manifestação, desde a mais tênue até a mais violenta dessas forças naturais, inerentes à existência. Na Alma comum aparecem em maior ou menor expansão, apresentando-se essa ou aquela paixão com maior ou menor violência, alternando-se à manifestação dos opostos.

Os fatores de aprisionamento são:

  • Sentimento de individualidade ou egotismo ( asmita): é o aspecto da ignorância que supervaloriza o que não é o Eu. Causa a identificação do Eu com os instrumentos de conhecimento, dos quais o intelecto é o primeiro. Daí surgem os sistemas de crença: “sou eu que penso”, “sou eu que vejo”, “eu sou este corpo”. Essa identificação gera o egotismo, ou seja, a enfatuação diante do sucesso (“eu sou poderoso”, “eu sou inteligente”, “eu triunfei”) e o abatimento diante do insucesso (“eu fracassei”, “eu sou doente”, “eu sou culpado”).
  • Atração (raga): aspecto da ignorância que consiste em identificar-se com as experiências de prazer, formando-se como resultado da memória dos objetos que proporcionaram impressões agradáveis. Desta forma, a atração torna-se um condicionamento mental que nos escraviza e nos limita, impedindo que tenhamos uma vida equilibrada, nutridora e educativa, em harmonia com a nossa natureza essencial, a Divina Presença EU SOU.
  • Aversão (dvesha): aspecto da ignorância que consiste em vivenciar estados de dor e desconforto, registrando-se na memória como experiências penosas. Provoca um desejo de opor-se, de resistir, de afastar-se ou de vingar-se. Da mesma forma que a atração, a aversão também se torna um condicionamento mental capaz de nos paralisar em nosso processo de evolução, gerando elementos nocivos como o ódio ou o medo, que vão, aos poucos, nos contaminando e nos consumindo.
  • Apego à existência (abhinivesha): esta ansiedade está presente nos insetos desde o primeiro instante do nascimento e é comum às Almas humanas mais inteligentes. O sábio, o louco e o animal têm as mesmas impressões latentes do caráter doloroso da morte. O fato de agarrar-se à vida é ignorância, porque implica a crença da permanência das coisas transitórias. Sua outra faceta – o medo da aniquilação – é também ignorância, porque a Alma é na realidade imortal.

Esses quatro fatores produzem as “tendências”, que são os traços deixados na “matéria” psíquica pelos atos e experiências. Enquanto permanecerem reunidos, eles serão incessantemente produtivos. Eles não podem ser anulados por um simples conhecimento teórico. Para dissolvê-los é necessário um esforço firme, reto e vigoroso, guiado por um método de reta conduta.

Para dominar não só os obstáculos que surgem no caminho espiritual, mas também os fatores que produzem as tendências viciosas, o método consiste em desenvolver a capacidade de discriminação, o desapego e o exercício assíduo (esforço contínuo).

A discriminação ou discernimento é a capacidade de identificar objetos e fatos como reais ou irreais, através do poder cognitivo.

Distinguem-se três níveis de realidade: de aparência, empírica e absoluta. A realidade de aparência se desvanece assim que a ilusão se dissipa. A realidade empírica está submetida a uma mudança perpétua, pois o que é absolutamente real deve ser invariável e indestrutível a todo e qualquer momento e circunstância. Portanto, esses dois níveis de realidade, ilusória e empírica, não podem ser “realmente” reais. São aparentemente reais ou reais apenas no momento presente. Somente o que é idêntico em todas as condições e através de todos os estados de consciência, é absolutamente real. Só a Realidade Absoluta é eterna e real; todas as demais coisas, os fenômenos tanto subjetivos como objetivos, são momentos, impermanentes e transitórios. Estar consciente dessa distinção é a discriminação.

“Aquela aquisição, felicidade e conhecimento do qual não existe superior, conheça esse como Brahman , o Absoluto”.

( Shankaracharya, Atmabodhah, 54 )

A discriminação é o meio de se alcançar o desapego. Somente pela discriminação é que o desejo pode ser definitivamente vencido. Discriminação e desapego podem ser considerados como os dois aspectos do mesmo processo de dissipação da ilusão. Pelo discernimento cada vez maior, sabe-se se está realmente desapegando ou se reprimindo e afastando-se das coisas e fatos, para não estabelecer um confronto.

Como nos ensina Sri Sathya Sai Baba :

“Os sentidos devem ser controlados com rigor através do discernimento e do desapego, as aptidões gêmeas outorgadas exclusivamente ao homem. O discernimento lhes ensina como escolher suas ocupações e companhias; mostra-lhes a importância relativa dos assuntos e dos ideais. O desapego libera-os das prisões e servidões, e salva-os tanto da desesperança quanto do regozijo”.

O desapego é o desinteresse por todos os prazeres que podem ser obtidos nesta vida ou após a morte. Em qualquer nível que a Alma Iniciada esteja ou em qualquer estado, plano ou condição, considera-se sua natureza impermanente. Tudo é visto de uma forma imparcial e impessoal, tais como são em realidade. Isto, não quer dizer que devemos parar de agir nem de termos desejos, mas de agirmos com soltura, alegria, espontaneidade e, acima de tudo, sem a tensão gerada pela cobrança de resultados esperados. O desapego supremo é uma absoluta clarificação do conhecimento, no qual não subsiste a menor impressão de um sentimento de privação ou de carência. É a liberação de todos os laços que nos submetem à existência no sansara , ou seja, ciclo dos renascimentos. Essa liberação foi poderosamente evocada pelo canto de triunfo de Budha após sua iluminação:

“Inumeráveis são as moradas da vida que me retiveram acorrentado, procurando incansavelmente aquele que elabora as prisões dos sentidos, tramas de decepção. Penosa e longa foi minha luta. Mas agora, já sei quem és, tu, arquiteto deste tabernáculo! Nunca mais reerguerás esses muros de dor. Não construirás mais teus abrigos de mentira, nem acrescentarás mais novos tijolos ao edifício! Destruída está tua casa, rompida a estrutura, feita de ilusão! Eu o supero, e livre finalmente, obtenho a liberação!”

O exercício assíduo ou esforço contínuo é o último aspecto essencial da prática da reta conduta, que implica energia, entusiasmo e perseverança. Só se torna firmemente estabelecido quando se prossegue com constância e com ardor durante um tempo suficientemente longo. No estudo da Alma, toda fraqueza mental vem da incapacidade de reter intenções apropriadas fortemente fixadas na Divina Presença “EU SOU”. Todos os conselhos e todas as diretivas dos livros religiosos e filosóficos são inúteis, por mais convincentes que sejam, enquanto a Alma humana for incapaz de segui-las, devido à sua fraqueza mental. Somente o esforço prolongado, regular, contínuo e fervoroso aos exercícios de reta conduta permite desenvolver a força mental necessária à liberação dos ciclos da reencarnação.

NARADA

Dr. Roberto Nogueira

Fisioterapeuta, Terapeuta dos Campos Sutis e Prof. de Yoga